quinta-feira, 28 de março de 2013

História da Páscoa

coelho da páscoa

A história da Páscoa é rica de aspectos religiosos e simbologias

Desde a antiguidade, a Páscoa é a festa mais importante da cristandade, a primeira a ser festejada por toda a Igreja, ainda no século II, num momento em que mesmo as regras básicas do credo cristão não estavam estabelecidas.


Primeiramente, uma questão que sempre me coloquei é: por que Jesus nasce sempre no mesmo dia do ano - 25 de dezembro - e "morre" todo ano num dia diferente? Isto pode ser respondido se pensarmos na origem da data escolhida para a Páscoa.

Cristo, seguindo o calendário judaico, no momento de sua prisão e flagelo, estava em Jerusalém com seus apóstolos exatamente para festejar a pessach, a "Páscoa" judaica, entre os dias 14 e 17 do mês judeu Nissan. Assim, sabemos que para conhecer a data exata da paixão de Cristo devemos nos remeter ao calendário judeu, lunar, isto é, com meses de 28 dias e que este calendário teve de ser associado ao cristão, solar, sendo que ambos, no início de nossa era ainda não tinham sido organizados e cada região tinha suas regras para contar o tempo.

Inicialmente, os fiéis não sabiam se deveriam festejar a santa ceia, a morte de Cristo ou sua ressurreição, cada membro da Igreja festejava numa data. Os cristãos da Ásia Menor seguiam a pessach entre o 14 e 15 Nissan e Roma festejava o domingo 17 Nissan, dia da ressurreição. Apenas com o Concílio de Niceia, em 325, que os eruditos de Alexandria, grande centro de astronomia da época, foram incumbidos de decidir a data da Páscoa para toda a cristandade e anunciar a mesma todos os anos no dia da epifania, 6 de janeiro. Esta data foi definida de acordo com as variações lunares e, por conseguinte a pessach, mas ao invés de se comemorar a crucificação ou a santa ceia, decide-se que a Páscoa será comemorada no domingo que segue a primeira lua cheia após o equinócio da primavera, momento da ressurreição.

A própria palavra Páscoa deriva do termo judaico pessach, que quer dizer passagem, utilizado pela primeira vez no Êxodo 12,11 referindo-se ao momento em que Deus salva o povo de Israel na noite que precede a fuga do Egito, sendo a passagem da escravidão para a liberdade.


Se pensarmos na palavra Páscoa em outras línguas tais como alemão - Ostern - ou inglês - Easter - veremos que ela tem outra origem, estando associada ao nome do local do nascer do Sol Ost e East respectivamente e em português, leste. Esta associação do nascer do Sol com a Páscoa é fundamental para o significado da festa, sobretudo ao pensarmos que todo o calendário foi realizado no hemisfério norte e que o ponto de partida para a contagem da Páscoa é o equinócio de primavera, isto é, a volta do Sol após um longo inverno.

Desde a Idade Média a Páscoa é festejada como sendo a volta da luz. As Igrejas se iluminavam na madrugada de domingo e todas as casas deveriam acender velas, o que é contado de forma impressionante por Santo Agostinho ao ver as luzes de Hipona.

Esta comemoração associa, então, dois aspectos: a ideia de ressurreição tanto de Cristo quanto do Sol e uma vitória da luz sobre as trevas por meio da destruição da morte, sendo que ambas nada mais são do que uma passagem para outra vida.


Ovo: símbolo da vida

O ovo, geralmente branco e frágil, é, de forma geral, uma metáfora para esta nova vida, ele é o símbolo do germe, encarna todo o conteúdo de uma vida numa simples casquinha, é o um que se divide passando pela metamorfose que cria o pintinho que consegue sair da sua casca, sendo um símbolo da transmutação e do renascimento. É desta forma que, para o cristianismo, Jesus é comparado ao pintinho que sai da sua casca, assim como Cristo saiu do Santo Sepulcro, sendo que a cor branca representa a pureza e a perfeição.

Do simbólico para o cotidiano, durante os 40 dias que precedem o domingo de Páscoa os fiéis estavam proibidos de consumir carnes e ovos. No entanto as galinhas, que não conheciam esta interdição, continuavam a pôr seus ovos normalmente, o que fazia com que os cristãos ficassem com muitos ovos sem poder comê-los. Para não desperdiçá-los surge, no século XII, a tradição de decorar as cascas dos ovos e oferecê-los como presente.


Conta-se que o rei Eduardo I da Inglaterra, em 1307, teria distribuído 450 ovos pintados aos membros da família real. Esta ideia acabará se desenvolvendo e ovos esculpidos em madeira são oferecidos ao rei, a família real russa começa a consumir ovos de Páscoa feitos pelo joalheiro Fabergé e os doceiros vão começar a fazer ovos em açúcar, chocolate e torrone para as crianças.

Muito provavelmente o uso do chocolate para ovos de Páscoa difundiu-se a partir da década de 50, pois, com o aumento da industrialização do chocolate, há um barateamento deste produto que antes era apenas acessível às classes mais elevadas. Além disso, pela sua fácil manipulação, o chocolate pode ser moldado o que facilita o trabalho para quem deseja fazer um ovo decorado, sendo muito mais simples do que retirar o conteúdo interno de um verdadeiro ovo para depois decorá-lo.


Coelho, não. Lebre de Páscoa

Para não falar de ovos sem falar de quem os traz, temos que contar que historicamente nunca foi um coelho quem fez este trabalho, mas sim a lebre, que é símbolo de fecundidade e, ao mesmo tempo, por ser indefesa, o símbolo do homem que coloca toda sua confiança em Deus. A associação ovo e lebre da Páscoa sempre teve um caráter fundamental na simbologia da chegada da primavera e este animal foi, desde cedo, confundido com o coelho pela sabedoria popular. A lebre é tão fortemente associada à fecundidade que desde a antiguidade aconselha-se comer carne de lebre para dar fertilidade às mulheres e testículos de lebre para que o bebê fosse um homem.

Ainda sobre os animais, não nos esqueçamos da galinha, um símbolo tradicional da realização dos desejos.

Finalmente, hoje em dia a Páscoa ultrapassou os limites da cristandade e de uma forma ecumênica agrega todos em torno do sabor universal do chocolate.


Matéria elaborada por Cintia Alfieri Gama, doutoranda na École Pratique des Hautes Études em Sorbonne, Paris, docente de História da Gastronomia e Antropologia da Alimentação das Faculdades Metropolitanas Unidas e conselheira científica do Museu do Louvre, na França.


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